Por LOWRY LANDI
Aldir Blanc Nascido no Rio de Janeiro, em 02 de agosto de 1946 e morto também no Rio de Janeiro, em 4 de maio de 2020, foi letrista, poeta e escritor muito respeitado pela crítica literária e pelos músicos que sempre ansiavam por suas contribuições musicais como letrista de renome. Com erudição e trânsito livre pela cultura popular, Aldir Blanc deixou uma extensa obra que perpassa diversos ritmos, com elaboração poética em temas como a crônica urbana, a crítica política e a experiência humana.
Vive a maior parte da infância no Bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Mais tarde, reside na Vila Isabel e no Largo da Segunda Feira e, finalmente, muda-se para o Bairro da Tijuca. O compositor atribuía sua versatilidade em termos de ritmos e temas o fato de ter aprendido a tocar bateria aos 18 anos. A prática neste instrumento lhe rendeu a bagagem rítmica e noções sobre gêneros e divisões de compasso.
Em 1966, ingressa na faculdade de medicina. Ainda universitário e ao lado de outros compositores, como Ivan Lins e Gonzaguinha, funda o Movimento Artístico Universitário (MAU). Neste período já na função de médico formado, especializa-se em psiquiatria, porém abandona a profissão médica em 1973.
Em 1968, inicia parceria com o compositor Silvio da Silva Jr., dois anos mais tarde, surge a primeira composição da dupla, AMIGO É PRA ESSAS COISAS, que é gravado pelo conjunto MPB-4. Nesta canção – com 63 versos sem repetições – está presente uma característica de destaque do estilo de Blanc: o extenso vocabulário, que lhe dá subsídios para escrever sobre melodias longas, que muitas vezes puderam chegar a 70 versos.
Blanc tem um longo percurso em parcerias com artistas de estilos diferentes e consegue trabalhar a métrica com perfeição e encaixar versos em melodias sinuosas e complexas. Blanc foi o letrista mais gravado pela cantora Elis Regina, com uma parceria iniciada em 1971 com o disco ELA, composto ao lado de César Costa Filho. No ano seguinte, a cantora grava BALA COM BALA, parceria de Blanc com João Bosco, e, mais tarde, a canção AGNUS SEI, que foi lançado no DISCO DE BOLSO, compacto que acompanhava o jornal O PASQUIM. Em 1979, ainda com a dupla Blanc e Bosco, Elis grava O BÊBADO E A EQUILIBRISTA, que é uma paródia com a estrutura de samba-enredo. Essa canção é adotada como hino da anistia aos presos políticos.
Traço marcante do compositor é o tom jocoso e muitas vezes escrachado para descrever situações corriqueiras, com notória capacidade de criar letras imagéticas, descrevendo de forma cinematográfica cenas do cotidiano, das mais insólitas às mais banais. O estilo de cronista urbano pode ser notado em canções como INCOMPATIBILIDADE DE GÊNIOS, de 1976, e KID CAVAQUINHO, de 1977, parcerias com João Bosco. Ao longo da década de 1970, os dois compositores têm algumas canções nas trilhas de abertura de famosas novelas televisivas e séries como DOCES OLHEIRAS. Compuseram a trilha da novela GABRIELA, da TV Globo, e VISCONDE DE SABUGOSA, para o seriado O SÍTIO DO PICAPAU AMARELO.
Outro aspecto de sua obra é a pluralidade dos recursos linguísticos. E qual a origem de tantas armas especiais que o letrista adquire da língua portuguesa? Segundo o próprio Aldir Blanc desde jovem ele adquiriu o hábito da leitura de autores de diferentes estilos da literatura portuguesa quanto internacional, entre clássicos antigos e contemporâneos, além de livros técnicos de medicina. Com isso adquiriu um tratamento refinado e o conhecimento de um vocabulário vasto que passou a utilizar com frequência nas letras das melodias de que era parceiro. No decorrer de sua carreira, além de escrever para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, Blanc publica livros em prosa e poesia, como a compilação de crônicas em RUA DOS ARTISTAS E ARREDORES, de 1978 e PORTA DE TINTURARIA, de 1981.
É um dos fundadores da Sociedade Musical Brasileira (SOMBRAS) em 1980 – quando foi o responsável pela arrecadação de direitos autorais –; da Sociedade de Artistas e Compositores Independentes (SACI) e da Associação dos Músicos, Arranjadores e Regentes (AMAR). Outros destaques em termos musicais do letrista se dão ao lado dos compositores Maurício Tapajós como em QUERELAS DO BRASIL, de 1978, e COLCHAS DE RETALHOS, de 1978; e com Moacyr Luz, com AQUÁRIO, de 1988 e ANJO DA VELHA-GUARDA, de 1998.
Blanc tem facilidade de compor canções cuja melodia, harmonia e ritmo sugerem ideias, climas e atmosferas completamente diferentes entre si, bem como transita entre o rebuscamento e o coloquial. Nessa linha, um dos exemplos mais clássicos é CATAVENTO E GIRASSOL, de 1996, com parceria com o compositor Guinga, em que ele cita na canção versos como “Entre o escancaro e o contigo/eu te pedi sustenido e você riu bemol” e “é fuck you, bate bronha/ e ninguém mete o bedelho”. A temática sentimental é outra face conhecida de suas letras, destacando as canções NEBLINAS E FLÂMULAS, de 1996 e RESPOSTA AO TEMPO, de 1998. Grava em 1996 o disco ALDIR BLANC – 50 ANOS, com a participação de Edu Lobo, Nana Caymmi, Danilo Caymmi, Leila Pinheiro e Paulinho da Viola.
Em 2006, adiciona novos textos ao livro RUA DOS ARTISTAS E ARREDORES, e lança RUA DOS ARTISTAS E TRANSVERSAIS. Em 2010, é convidado pelo jornalista e escritor Ruy Castro para compor, ao lado de Carlos Lyra, a trilha sonora do musical “ERA NO TEMPO DO REI”, com direção geral de João Fonseca e direção musical de Délia Fischer.
Aldir Blanc é considerado um dos melhores letristas do Brasil. Com cerca de 500 temas compostos, seu legado passa por variados gêneros musicais que é marcado pela fusão da sofisticação com a irreverência pra abordar tanto temas prosaicos do cotidiano quanto temas densos e politizados.

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