Por LOWRY LANDI
Embora elementos da linguagem épica existam no teatro desde os seus primórdios, o TEATRO ÉPICO surge com o trabalho prático e teórico de Bertolt Brecht. Trata-se do resgate de um termo antigo para conceituar uma nova linguagem cênica. Essa é substancialmente organizada a partir de textos que abordam os conflitos sociais sob uma leitura marxista, encenados pelo MÉTODO DO DISTANCIAMENTO.
A primeira montagem de um texto de Brecht no Brasil ocorre na Escola de Arte Dramática – EAD, com A EXCEÇÃO E A REGRA, em 1956. A primeira encenação profissional dá-se com A ALMA BOA DE SET-SUAN, 1958, pelo Teatro Maria Della Costa – TMDC. Seguem-se OS FUZIS DA SENHORA CARRAR, 1962, pelo Teatro de Arena, O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO, 1963, PELO Teatro Nacional de Comédia – TNC, e A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS, pelo Teatro Ruth Escobar.
O Teatro Épico utilizava uma série de instrumentais diretamente ligados à técnica narrativa do espetáculo, onde os mais significativos são: a comunicação direta entre ator e público, a música como comentário da ação, a ruptura de tempo-espaço entre as cenas, a exposição do urdimento, das coxias e do aparato cenotécnico e o posicionamento do ator como um crítico das ações da personagem que interpreta. Tais ingredientes estão em algumas importantes montagens dos anos 1960. Os espetáculos ARENA CONTA ZUMBI e ARENA CONTA TIRADENTES, por exemplo, inauguram o SISTEM CORINGA, desenvolvido por Augusto Boal no Teatro de Arena, onde as soluções bechtianas são aclimatadas e empregadas em indisfarçável chave brasileira.
A existência de um narrador distanciado (o coringa) opõem-se à existência do protagonista (criado à maneira realista) e o coro (que pode ora pender par um lado, ora para outro) e o emprego da música como comentário, a constante troca de papeis entre os atores e os saltos no desenvolvimento da trama são alguns dos recursos mais utilizados.
O TEATRO OFICINA também realiza encenações históricas de textos de Brecht: GALILEI GALILEU, em 1968, alternando cenas efetivadas ao estilo brechtiano mais ortodoxo com a cena do carnaval em Veneza, onde recursos tropicalistas surgem com desenvoltura. Na SELVA DAS CIDADES, em 1969, texto do autor prévio à teorização épica é, entretanto, encenado como uma arqueologia da cultura contemporânea, perpassado na violência dos conflitos urbanos, criando inúmeras conexões com a contracultura e o pós-tropicalismo. José Celso Martinez Corrêa, diretor das duas encenações, declara ao jorna O Estado de São Paulo, anos antes: “O TEATRO ÉPICO, tendo um caráter demonstrativo, usa muitos elementos visuais e não só literários, o que o torna mais comunicativo para o público moderno, acostumado ao cinema e à TV. O Teatro Épico é gostoso como um filme”.
Em visita ao Berlinger Ensemble, companhia fundada por Brecht na Alemanha, José Celso descobre o humor da atriz Helena Weigel e da linguagem do grupo.
Nos anos 1970, o conjunto das propostas brechtianas passa por um redimensionamento entre os grupos brasileiros.
O Pessoal do Cabaré, que desenvolve uma linguagem própria, promove uma reposição do teatro épico e também do Sistema Coringa. Valoriza-se o conjunto do grupo como autor e a especificidade de cada integrante: os atores cantam, tocam e falam de si. Não é o Teatro Épico brechtiano – mas guarda dessa descendência, a teatralidade como o prazer de ser e se mostrar como teatro. Essa consciência de si não pode mais ser ignorada: o teatro puramente dramático está ao que parece, enterrado.
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